terça-feira, 7 de março de 2017

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Conceito de fim...



Ontem abri aleatoriamente as páginas de um livro, tinha um leve cheiro do teu perfume. Estremeci, a tua memória preencheu-me.

Por momentos esqueci as minhas noites solitárias, tantas noite em que chorei até pensar que já não teria nada dentro de mim, em que todo o sentimento, toda a dor, toda a perda, foram derramadas sobre a almofada, essa almofada a que me agarro nessas noites que parecem não terminar, essa almofada que acalma os pesadelos que teimosamente insistem em visitar-me. Sinto-me oca, vazia, de tanto chorar...A gata, que ocupou o teu lugar na cama, acorda muitas vezes comigo a gritar o teu nome, acorda comigo empapada em suor. Coitada da bichana, mia baixinho junto do meu ouvido, numa tentativa de me reconfortar, o que até resulta, mas os pesadelos da tua ausência são uma visita constante.

Às vezes penso se estes pesadelos não serão a minha consciência a gritar de culpa. Cheguei a desejar a tua morte, sabias? Houve uma altura em que me fartei de correr para o hospital, em que me fartei de olhar para ti e ver um esqueleto ambulante, em que me fartei de todos os tratamentos infrutíferos e de todas as falinhas mansas dos doutores. Muitas vezes pensei em dar-te uma dose extra de morfina e antecipar o teu destino, e muitas vezes olhei para os teus olhos e sei que me estavas a suplicar que o fizesse...Penso agora se esses meus pensamentos não terão apressado o teu fim, uma espécie de mau carma. É uma estupidez, eu sei, mas os pesadelos teimam em fazer-me companhia juntamente com a gata.

Assim como a culpa e a tua ausência, a tua constante ausência




quarta-feira, 13 de julho de 2016

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Era uma porta enferrujada. E ela entrou.


O autocarro partiu e a porta atrás dela se fechou.
Carregada de sacos onde cabiam os sonhos que o mundo apagou,
Só pensava em fugir de uma vida sacrificada, na rotina de vida em que tombou.
Saiu de casa com os seus sacos mal o dia madrugou,
Regressa a casa com os seus sacos já a noite se fechou,
Sempre com os seus sacos, mais um dia que acabou.
Carrega uma vida nas pernas que o mundo desengonçou,
As mãos grosseiras, a pele acabada, de tanta casa que limpou.
Quando chega a casa ainda vai cuidar da filha que gerou,
A sopa num ápice tragou,
Enquanto a filha o peito mamou,
Mas de tão cansada nem a própria casa arrumou.
Chega o marido, traste, bêbado, canalha, bate-lhe e ela nem notou,
Mais um dia que se passou.
Deitou-se dorida e sonhou,
Sonhou com uma porta enferrujada que sobre ela se fechou
Ali, com uma pedra com o seu nome ela se deparou
E ela finalmente descansou...

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E se fosse proibido abraçar?


João,

Esta carta não é um pedido de perdão, é uma tentativa egoísta de limpar a consciência. Bem ao meu jeito, dirás tu…

Tivemos uma relação conturbada e sei que a mim e aos meus medos se deveu.

Vivi uma vida dupla, de dia, marido e pai extremoso, à noite era um gajo que não tinha problema nenhum em ir para um qualquer quarto escuro de uma qualquer discoteca e fazer um broche a um quase perfeito desconhecido. Não te importas-te, acreditavas em finais felizes e que o amor tudo pode conquistar, nem te passava pela cabeça que existem muitos cabrões por aí e que eu poderia ser um deles.

Entraste de mansinho na minha vida com o teu jeito sossegado e discreto, com o teu sóbrio silêncio a povoar os meus dias, e os teus carinhos a aquecerem as minhas noites.

Quiseste levar a tua felicidade para o mundo, quiseste levar a nossa cumplicidade para fora das quatro paredes, e eu tive medo. Não pela minha mulher, pois acho que ela, primeiro que eu, soube das minhas preferências sexuais, mas pelo mundo. Esse mundo que via em mim um marido, um pai, o bem sucedido gestor dum banco, o gajo que joga à bola, e que bebe umas cervejas com os amigos.

E se o mundo me visse a abraçar-te em plena rua? O que diriam? Paneleiro, era o que diriam!!

Os gajos da bola com medo que eu os apreciasse no balneário, os amigos por já não poderem gozar com as bichas, e não fazer agora qualquer sentido galar as miúdas.

O mundo subjugou-me, não te deixei dar-me um simples abraço, e tudo por medo, somente medo, e agora faz-me falta o teu abraço..

quinta-feira, 16 de junho de 2016

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O discurso de uma criança de cinco anos para o mundo

Tenho 5 anos e chamo—me Ana, e acho que tu, mundo, és um lugar triste porque estás sempre a fazer as pessoas chorarem, como a minha mãe por exemplo. Ela brinca muito comigo, e faz—me rir muito, é muito divertida, mas às vezes à noite eu ouço—a a chorar muito baixinho. Deve ter saudades do meu pai, eu também tenho muitas, a minha mãe diz que ele morreu com overdose. Eu não sei o que essa palavra quer dizer, mas acho que deve ter a ver com as picas que tinha no braço. Durante algum tempo, sempre que ia ao médico levar a vacina ficava cheia de medo de morrer, e não queria ir, mas a minha mãe disse que há picadas boas e picadas más.

No outro dia no supermercado, encontrámos a vizinha e ela estava a chorar. Disse que os homens das Finanças tinham ido lá a casa, e que ia ficar sem casa. Fiquei muito assustada, e nesse dia à noite perguntei à minha mãe se nós também íamos ficar sem casa. Ela respondeu que não, que ia fazer tudo para que isso não acontecesse, mas toda a gente aqui no bairro está assustada e triste. De vez em quando vejo as pessoas chorarem e dizerem que as Finanças lhe ficaram com a casa, com o carro ou com o ordenado. Devem ser mesmo maus e sempre que eu não quero comer a sopa, a minha mãe diz que vai chamar os homens das Finanças. Como logo tudo, tudo, nem deixo nada no prato.

Mas também acho que tens coisas bonitas, tenho muitos amigos e brincamos até anoitecer.

Mas a coisa mais bonita que tens é o sorriso e o abraço da minha mãe.




Da tua amiga, Ana.

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Todas as frases começadas pela letra "a"


Apenas queria sentir o frio suave da arma contra a minha cabeça, e depois...Disparar!

Às vezes penso que apenas continuo viva só para te contentar.

Agarrada a um mero fino fio que há muito se quebrou,

Anestesiada pelo cheiro pútrido dos arrabaldes, pobres e miseráveis e sempre iguais a si mesmos.

A vidinha tão rotineiramente vivida,

Apegada a dias tão triviais, tão cheios de rotinas, horários e pormenores.

A vida toda, toda, contida numa simples maleta de mão…

Ali jaz toda a minha existência, todo o meu eu, numa mera mala de mão.

As horas...E as horas?

As horas que tenho de enfrentar...o amanhã e o dia depois de amanhã, e o dia depois...

A sucederem-se interminável e imutavelmente,

Aguentando esta farsa disfarçada de vida.

Ali ao canto a morte olha de volta para mim, tão pacifica, com os seus olhos abertos e respiração impercetível,

Abandono-me ao seu mortal beijo, e desta vez entrego-me a ela,

A ela, só a ela,

Abandonando-te a ti...

3/2


"Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor."

Sonho, foi aquilo que eu vivi contigo, e eu, feito camelo deitei tudo a perder…Iludido pelos nossos dias imperfeitos, saí em busca dessa perfeição inexistente, e tu fechaste a porta. Levaste as tuas roupas, as tuas lágrimas, o teu cheiro. O amor é idiota, mas o orgulho é-o ainda mais, e eu, convencido da minha razão, do alto da minha soberba, não fiz sequer um pequeno esforço para te impedir de saíres da minha vida.

Não sei se foi por altivez ou apenas por mero medo que me visses chorar, e os homens nunca choram, mas a verdade é que deixei a letargia tomar conta de mim, os pés com vontade de correrem até ti, mas as pernas teimosamente a ficarem quietas.

Por vezes penso se aquilo que sentia por ti seria amor, ou apenas uma paixão latejante, pois se de amor se tratasse, eu arrebentaria as rédeas desta vaidade incapacitante, e correria feito louco atrás de ti, não importando se os pés se embrulhassem, fazendo-me tombar nas ruas vazias, tão vazias como eu estou agora sem ti.

E agora que te perdi, e és um mero sonho, descubro-me vazio, oco, perdido, faminto de ti.

Conteitei-me com o orgulho…

O orgulho é idiota.

My paradise