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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2006

Fragilidades

Ele procurou as chaves no bolso e abriu porta devagar, fechando a porta atrás de si com um suspiro. Aquela casa, agora que ela se tinha ido embora, parecia-lhe enorme, vazia. Dirigiu-se à cozinha, tirando uma cerveja do frigorífico, ritual que se tinha instalado na sua recente vida de solteiro forçado, e instalou-se no sofá a sorver o fumo de um cigarro. Se calhar devia mudar de casa, mas aquela trazia-lhe tantas recordações...ali o quarto, cúmplice de conversas sobre a vida, de carícias trocadas entre dois corpos que se amavam e de tantas noites sem dormir; além a casa de banho, onde ainda se sentia o perfume que ela usava, aquele perfume suave mas inebriante, que fazia estremecer o seu ser; aqui a sala, onde as linhas dos livros tinham ganho vida sob as suas mãos. Como ele tinha saudades daquelas mãos, finas, de dedos longos, que deslizam pelas folhas dos livros como quem faz uma carícia... Ele ainda não acreditava que aquilo lhe tinha acontecido... Foi há 2 semanas: entrou em casa c…

Mais uma volta, mais uma viagem

Estive uma semanita de férias, a tempo de apanhar as festas da cidade. Engraçado como é que de Norte a Sul do país, seja qual for a terreola, o ambiente das festas é sempre igual, até as pessoas que as frequentam parecem iguais. Lá estavam as luzes, apenas meia dúzia, para o povo não poder dizer que o dinheiro público está a ser mal empregue, se bem que nesta história das festas, seja apropriado o comentário de Maria Antonieta: "atirem-lhes bolos". O povão distrai-se com qualquer coisa. Adiante... Lá estavam as bancas dos ciganos, com os seus altifalantes e um rancho de filhos atrás, que isto à dúzia é mais barato, seja os filhos seja os trapos que vendem; lá estavam as bancas dos indianos, com as suas túnicas e bugigangas coloridas; lá estava o camião das maravilhas: "por 30 € leva 2 cobertores e 2 jogos de banho, e só por mais 5 € leva ainda estes lençóis e uma dúzia de panos de cozinha", camião este que já se encontra em vias de extinção. É que é preciso arte p…

O último dia da vida de Ysmael

Ontem o Ysmael foi ao mercado arranjar algo para dar de comer aos seus 4 irmãos e à sua mãe, agarrada à cama desde o último bombardeamento. O pai já há muito que desapareceu; encontra-se na glória de Alá acompanhado pelas virgens que tem direito. Teve uma morte gloriosa: arrebentou um restaurante e matou toda a gente que lá se encontrava. Ysmael deu graças por ter tido um pai tão corajoso...
As habitações que ladeavam o caminho entre o mercado e a casa de Ysmael estavam todas destruídas pelos bombardeamentos, as paredes crivadas de balas, no chão fotografias de quem lá tinham habitado, algumas das quais pertenciam a companheiros de Ysmael, simples miudos de cara redonda e olhos grandes, cujos corpos estavam agora abandonados à sua triste sorte e às moscas...Ysmael pensou que pelo menos agora não podia ir à escola. As aulas tinham sido interrompidas com o começo dos bombardeamentos, e logo na véspera dele apresentar um trabalho que não tinha preparado. Ysmael deu graças pela sua sorte..…

A floresta que se lixe...

500 bombeiros e a ajuda do avião russo Beriev não chegaram para travar as chamas em Paredes. Onde estão os meios que durante semanas foram publicitados e encheram as manchetes dos jornais? Onde estão os aviões? Onde está o kit individual de combate ao fogo, que ainda à poucas semanas numa cerimónia de pompa e circunstância, foi anunciados? Quando esta publicidade foi feita, confesso que cheguei a acreditar que talvez este ano fosse diferente, que a nossa floresta fosse um pouco poupada ao flagelo dos incêndios. Esqueci-me que estava em Portugal...é feita a publicidade para distrair o pessoal, alguém arrecada dinheiro ao bolso com os contratos chorudos que são feitos, e a floresta que se lixe...