quinta-feira, 29 de maio de 2008

Quero

Quero

Quero recomeçar de novo, quero voltar a ser criança,
Quero afastar de mim a marcha inevitável até à morte.

Quero voltar a escrever pela primeira vez o meu nome nos cadernos escolares,
Quero voltar a fazer mil tropelias elevadas a um qualquer expoenente matemático.
O tempo é um bom conselheiro, dizem eles,
Mas a mim faz-me sentir como uma qualquer tapeçaria velha,
Faz-me sentir o significado da palavra vulnerabilidade,
Faz-me sentir que sou apenas uma silhueta daquilo que já fui.

Quero sentir-me de novo leve como uma pena,
Correr mais veloz que o vento,
Sem qualquer obstrução ditada pela idade.

Não quero desaparecer como o orvalho matinal,
Apenas quero durar um pouco mais...
Apenas...
Até amanhã de manhã...


Texto publicado no 3º jogo das 12 palavras no Eremitério

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O mundo na ponta dos dedos

Isto da Internet é um espectáculo...tantos anos a ser utilizadora desta coisa e ainda consigo ficar maravilhada perante o seu poder. Domingo, depois de ter navegado numa livraria online, encomendei 2 livros a serem-me entregues em casa. 3ª feira já tinha o aviso postal para os ir levantar aos CTT, e hoje procedi ao seu levantamento, contente e entusiasmada por ter mais dois livros a adicionar à biblioteca.

Por mais que falem dos malefícios da Net, no meu ver é só vantagens. Já reservei viagens, hotéis, bilhetes de espectáculos. Já tirei dúvidas sobre um qualquer assunto, já tirei um curso em e-learning, já entreguei o IRS. Vejo a quantas andam as minhas finanças, consulto diariamente o Diário da República, e leio os jornais (embora ache que nada bate o papel). Podemos manter o contacto com amigos mais ou menos distantes, ver casas para alugar ou comprar, ver propostas de emprego, enviar currículos, e até, quiçá, encontrar o amor. E tudo isto à distância dum clique. É como ter um mundo na ponta dos dedos...
E como se costuma deixar para último o melhor, ainda temos os blogues, e todos vós que aqui "conheci"...

sábado, 17 de maio de 2008

Spencer Tunick


Até 8 de Junho, está patente na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira a mostra ‘Spencer Tunick Exhibition’. Dez fotografias de grande formato e 22 de menor dimensão, e um vídeo que mostra o making of da instalação realizada pelo fotógrafo americano, em 2003, em Santa Maria da Feira, podem ser apreciados de segunda-feira a domingo, entre as 12h00 e as 23h00. A entrada é livre.

Para além das imagens da instalação realizada na terceira edição do Imaginarius, em 2003, a exposição mostra instalações realizadas em outros países, como Holanda, Itália e México.

Na terceira edição do Imaginarius, em 2003, mais de 300 pessoas de diferentes idades, vindas de todo o país e do estrangeiro, posaram nuas nas ruas e praças de Santa Maria da Feira, bem como na Biblioteca Municipal, perante as objectivas de Spencer Tunick.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Democracia

No "DN" de Domingo, 4 de Maio, podia-se ler: Democracia portuguesa é das piores da Europa.

Segundo um estudo da Demos, uma ONG britânica, Portugal, dentro de um leque de 25 países europeus, está em 21º lugar no "index da democracia quotidiana" ("Everyday democracy index"-EDI). Para além de ser avaliada a democracia formal, na forma de eleições, também é avaliada a democracia informal, como a resolução dos problemas em sociedade ou dentro duma família.

E é este último critério que influencia negativamente a nossa posição na tabela. Começa logo pela participação. Já foi mais do que dito e debatido neste blog a quão baixa é a nossa participação na vida política...alheamo-nos do que se passa à nossa volta; as poucas associações cívicas que existem não confiamos nelas, ou porque pensamos que estão conotadas com determinado partido, ou porque pensamos que estão conotadas com os interesses duma classe profissional em particular. Os poucos movimentos de cidadãos que existem, surgem perante um contexto muito específico, debatendo um problema específico, e numa cidade específica, esgotando-se quando esse contexto já não existe (por exemplo, o Movimento em Defesa do Bolhão). Contudo é nestes pequenos movimentos movidos pela multidão anónima, que mais uma pessoa pode fazer a diferença...

E depois temos a democracia dentro da família, uma família ainda dominada pela religião, e pelos valores que a Igreja (e não Cristo) nos quer impingir. Uma família ainda dominada pela figura masculina. Afinal, basta desfolhar o Código Civil para encontrar em muitas páginas o critério do "Paters Família",o bom pai de família. E já agora, o que significa isso hoje em dia?

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Aldeia


Ele ajeitou a sacola já coçada da tropa ao ombro e preparou-se para subir o degrau do comboio regional. Depois duma semana de campo estafante, sempre debaixo de chuva e a ouvir a gritaria do sargento de instrução, e os ossos e a mente a pedirem-lhe descanso, aquela licença de fim de semana ia saber-lhe mesmo bem.
Ia de visita à terra, aquela pequena aldeia no meio do vale. Aquela aldeia que o viu nascer e fazer-se homem, testemunha dos seus amores e desamores e sorriu ao lembrar-se da sua terra e das suas tropelias enquanto moço. Era uma aldeia cruzada por apenas por meia dúzia de ruas que subiam e desciam conforme o relevo natural do vale, onde flores de várias cores e de vários cheiros espreitavam nos beirais das janelas; ali ao lado corria um ribeiro, onde os miudos e graúdos se iam banhar para se refrescarem do sol escaldante da época do estio. Era uma delícia ver o pequeno caudal encher-se de risos e de piruetas mirabolantes, a tentarem impressionar os elementos do sexo feminino ali presentes. Nas noites de Inverno, quando a sombra da noite tocava o vale mais cedo do que o habitual, e o frio se fazia sentir, acendia-se uma fogueira no centro da aldeia. O fogo que ao inicio surgia timido e ténue, em breve dava lugar a enormes labaredas, proporcionando troca de conversas entre novos e velhos, onde as tradições orais e os conhecimentos dos antigos eram passados para a próxima geração, criando-se assim uma atmosfera envolvente e de convívio.
A casa da tia Joaquina era a mais frequentada...fazia uns doces e bolos de criar água na boca, vendendo-os no mercado municipal da vila. Ela bem enxotava os miudos à vassourada, mas não adiantava...depois de se banharem no ribeiro, eles passavam religiosamente na sua casa, e apesar dos seus protestos, ela dava-lhes sempre uma generosa fatia de bolo de chocolate.
Lembrava-se ainda daquele ano em que queria comprar uma prenda para a sua primeira namorada e não tinha dinheiro. Pegou então numa caixa e lá depositou graxa e uma série de escovas, e andou de porta e porta a engraxar os sapatos aos aldeões, os quais aderiram cumplicemente a esta iniciativa, uma vez que sabiam desta paixoneta, e queriam ajudá-lo a fazer boa figura. Afinal não há amor como o primeiro, e quando as coisas acabaram, ele ficou com o coração destroçado. Ele tinha a ilusão, própria dos primeiros amores, que este seria um amor para a vida.
Ele acordou dos seus devaneios, acordado pelo estremecer do comboio na linha, e olhou lá para fora...ainda tinha uma longa viagem pela frente até à sua pequena aldeia, aquela aldeia no meio do vale...



Texto publicado no 2ºJogo das Palavras no Eremitério

My paradise