sábado, 27 de novembro de 2010

A noite de Ravensbruck


Vais morrer entre as quatro paredes deste campo. Aqui entra-se por aqueles portões e sai-se pela chaminé, feita fumo !

* Quando aqui cheguei, um esqueleto ambulante veio ter comigo e perguntou-me se tinha alguma coisa que lhe desse para comer, para beber, queria chocolate... (Odette, deportada)
* Vais morrer entre as quatro paredes deste campo. Aqui entra-se por aqueles portões e sai-se pela chaminé, feita fumo ! (Guarda Muller)
* Nós quando éramos gente usávamos papelotes para fazer caracóis, para nos pormos bonitas, à moda de Paris ! (Sara, deportada)
* O melhor espectáculo que posso ter num campo como este, que foi o campo da minha juventude, é a cerimónia das chamadas. A chamada é o temor das mulheres frágeis, é quando as que se cagam, cagam mesmo e acabam ali ! (Guarda Muller)
* As nossas cabeças rapadas, as nossas fardas às riscas, os nossos socos agarrados à lama, os nossos olhos que não se erguem do chão ! (coro das deportadas)
* Ontem à tarde, quatro deportadas e uma ucraniana evadiram-se deste campo ! (altifalante do campo de concentração)
* Uma bota nazi nunca teve gente dentro, meu amor ! (Sara, deportada)
* Pobre de mim, que sempre obedeci a ordens e agora devo ser sacrificada ! (Guarda Muller)
*Ave, viva, liberdade / Finalmente chegaste / Já não há uma única grade / Já não há sequer um carrasco / Todos são livres / livres / livres / livres (coro das deportadas)
* Mamã, mamã ! Diz-se carrasco ou carrasca ? Verdugo ou verduga, mamâ ? (Filha)

in, «A noite de Ravensbruck»
19-11-2010 a 28-11-2010 Cine-Teatro Constantino Nery - Matosinhos

Quem Morre?

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.
- Martha Medeiros -

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.
- Marina Colasanti -

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Does anybody help me?


Quis falar aos meus governantes, mas tinham a agenda ocupada;
Liguei para os meus professores, mas o número não se encontrava atribuído;
Escrevi ao meu bispo, mas o mail estava cheio;
Finalmente, ajoelhei-me, entrelacei as mãos e olhei para os céus...
Mas...
Deus estava cego...

My paradise