quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Nasci Para Morrer Contigo

Nasci para morrer contigo
a cama que tenho dou-te
meu amante meu amigo
não te vás ficar comigo
esta noite toda a noite

Quero que a pele seja trigo
a ondular ao açoite
dos gemidos que te digo
meu amante meu amigo
nasci p´ra morrer contigo
esta noite toda a noite

A gaivota dos meus braços
foi feita para o teu rio
tuas pernas são meus laços
a tua boca dois traços
na boca que o espelho viu

- António Lobo Antunes -

Fado Adivinha

Quem se dá, quem se recusa
quem procura, quem alcança
quem defende, quem acusa
quem se gasta, quem descansa
quem faz nós, quem os desata

Quem morre, quem ressuscita
quem dá a vida, quem mata
quem duvida e acredita
quem afirma, quem desdiz
quem se arrepende, quem não

Quem é feliz e infeliz
quem é, quem é
coração.

Quem é feliz e infeliz
quem é, quem é
coração.
- José Saramago -

Lágrima

Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto
Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo
Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar
- Amália Rodrigues

A Invisibilidade de Deus

dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
- Al Berto

Capitlism

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Nome de rua

Nome de rua quieta / onde à noite ninguém passa... / Onde o ciúme é uma seta, / onde o amor é uma taça... / Nome
de rua secreta / onde à noite ninguém passa... / Onde a sombra do poeta / de repente nos abraça... / Com um pouco
de amargura, / com muito de Madragoa, / e a ruga de quem procura, / e o riso de quem perdoa, / deste-me um nome
de rua, / de uma rua de Lisboa...

- D. Mourão Ferreira

Fado Quimera

Eu quis um violino no telhado / e uma arara exótica no banho. / Eu quis uma toalha de brocado / e um pavão real do
meu tamanho. / Eu quis todos od cheiros do pecado / e toda a santidade que não tenho. / Eu quis uma pintura aos pés
da cama / infinita de azul e perspectiva. / Eu quis ouvir as Cármina Burana / na hora da orgia prometida. / Eu quis
uma opulência de sultana / e a miséria amarga da mendiga. / Eu quis um viho feito de medronho / de veneno, de
beijos, de suspiros. / Eu quis a morte de viver dum sonho / eu quis a sorte de morrer dum tiro. / Eu quis chorar por ti
durante o sono / eu quis ao acordar fugir conyigo. / Mas tudo o que é excessivo é muito pouco. / Por isso fiquei só,
com o meu corpo.

- Rosa Lobato Faria -

Os Velhos Amantes

Amor que grita, amor que cala / amor que ri, amor que chora / mil vezes eu peguei na mala / mil vezes tu te foste
embora / E tanto barco a ir ao fundo / tornava o mar da nossa casa / em oceano de loucura / quando oscilava o nosso
mundo / eu perdia o golpe de asa / e tu o gosto da aventura / Ai meu amor amargo doce e deslumbrante amor / amor
à chuva, amor em sol maior / amor demais amor eterno / Conheço bem os teus desejos / e tu as minhas fantasias /
morreste em mim todos os beijos / nasci em ti todos os dias / Se muita vez fomos traição / e muita vez mudou o vento
/ e muito gesto foi insulto / em tanta dor de mão-em-mão / nós aprendemos o talento / de envelhecer sem ser adultos
/ Ai meu amor amargo doce e deslumbrante amor / amor à chuva, amor em sol maior / amor demais amor eterno / E
quanto mais o tempo passa / e quanto mais a vida flui / e quanto mais se perde a graça / do que tu foste e da que eu
fui / Mais a ternura nos aperta / mais a palavra fica certa / mais o amor toma lugar / envelhecemos mais depressa /
mas nos teus olhos a promessa / vai-se cumprindo devagar / Ai meu amor amargo doce e deslumbrante amor / amor
à chuva, amor em sol maior / amor demais amor eterno.

- Rosa Lobato Faria - 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

ANTES CALADOS

ANTES CALADOS

E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?

(Mais perguntas, amor? Antes calados.)

- José Saramago

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Fecham-se os dedos donde corre a esperança

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

- José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Truque Tóxico

Volto ao quarto de pensão, fumo até ao vómito isto é : drogo-me.....
....abro a caixa de papelão, aparentemente cheia de sonhos 
escolho um, fumo mais erva, nenhum sonho me serve, 
abro a caixa dos pesadelos..... 
o silencio ocupa-me e da caixa libertam-se corpos 
cores violentas, olhares cúbicos, pássaros filiformes 
cadeiras agressivas
limo as arestas fibrosas dos objectos 
arrumo-os pelo quarto, de preferencia nos cantos 
dou-lhes novos nomes, novas funções, suspiro extenuado 
embora a sonolenta tarefa não tenha sido demorada ....
outra caixa, azulada, abro-a 
entro nela e fecho-a, o escuro solidifica-se na boca 
tenho medo durante a noite alguém se lembrou de atirar fora a caixa...... 
....luzes, umbigos obscurecidos pelas etiquetas 
dos pequenos produtos de consumo, tóxicos 
FRAGIL - MANTER ESTE LADO PARA CIMA 
NÃO INCLINAR 
TIME TO BUY ANOTHER PACKET 
O quarto está completamente mobilado de corpos 
explodem caixas, o sangue alastra 
estampa-se nas paredes sujas de calendários e cromos 
de pin-ups obscenas 
....fendas de bolor no espelho o reflexo do corpo arde como uma decalcomania 
TIME TO BUY ANOTHER PACKET todos dormem dentro de caixas, uma serpente flutua 
falamos baixinho 
não se ouvem mais barulhos de cidade 
o sono e o cansaço subiram-me á boca 
....movemo-nos lentamente para fora de nossos corpos 
e devastamos, devastamos.....

- Al Berto -

This used to be my playground