quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Invisibilidade de Deus

dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
- Al Berto

Capitlism

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Nome de rua

Nome de rua quieta / onde à noite ninguém passa... / Onde o ciúme é uma seta, / onde o amor é uma taça... / Nome
de rua secreta / onde à noite ninguém passa... / Onde a sombra do poeta / de repente nos abraça... / Com um pouco
de amargura, / com muito de Madragoa, / e a ruga de quem procura, / e o riso de quem perdoa, / deste-me um nome
de rua, / de uma rua de Lisboa...

- D. Mourão Ferreira

Fado Quimera

Eu quis um violino no telhado / e uma arara exótica no banho. / Eu quis uma toalha de brocado / e um pavão real do
meu tamanho. / Eu quis todos od cheiros do pecado / e toda a santidade que não tenho. / Eu quis uma pintura aos pés
da cama / infinita de azul e perspectiva. / Eu quis ouvir as Cármina Burana / na hora da orgia prometida. / Eu quis
uma opulência de sultana / e a miséria amarga da mendiga. / Eu quis um viho feito de medronho / de veneno, de
beijos, de suspiros. / Eu quis a morte de viver dum sonho / eu quis a sorte de morrer dum tiro. / Eu quis chorar por ti
durante o sono / eu quis ao acordar fugir conyigo. / Mas tudo o que é excessivo é muito pouco. / Por isso fiquei só,
com o meu corpo.

- Rosa Lobato Faria -

Os Velhos Amantes

Amor que grita, amor que cala / amor que ri, amor que chora / mil vezes eu peguei na mala / mil vezes tu te foste
embora / E tanto barco a ir ao fundo / tornava o mar da nossa casa / em oceano de loucura / quando oscilava o nosso
mundo / eu perdia o golpe de asa / e tu o gosto da aventura / Ai meu amor amargo doce e deslumbrante amor / amor
à chuva, amor em sol maior / amor demais amor eterno / Conheço bem os teus desejos / e tu as minhas fantasias /
morreste em mim todos os beijos / nasci em ti todos os dias / Se muita vez fomos traição / e muita vez mudou o vento
/ e muito gesto foi insulto / em tanta dor de mão-em-mão / nós aprendemos o talento / de envelhecer sem ser adultos
/ Ai meu amor amargo doce e deslumbrante amor / amor à chuva, amor em sol maior / amor demais amor eterno / E
quanto mais o tempo passa / e quanto mais a vida flui / e quanto mais se perde a graça / do que tu foste e da que eu
fui / Mais a ternura nos aperta / mais a palavra fica certa / mais o amor toma lugar / envelhecemos mais depressa /
mas nos teus olhos a promessa / vai-se cumprindo devagar / Ai meu amor amargo doce e deslumbrante amor / amor
à chuva, amor em sol maior / amor demais amor eterno.

- Rosa Lobato Faria - 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

ANTES CALADOS

ANTES CALADOS

E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?

(Mais perguntas, amor? Antes calados.)

- José Saramago

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Fecham-se os dedos donde corre a esperança

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

- José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Truque Tóxico

Volto ao quarto de pensão, fumo até ao vómito isto é : drogo-me.....
....abro a caixa de papelão, aparentemente cheia de sonhos 
escolho um, fumo mais erva, nenhum sonho me serve, 
abro a caixa dos pesadelos..... 
o silencio ocupa-me e da caixa libertam-se corpos 
cores violentas, olhares cúbicos, pássaros filiformes 
cadeiras agressivas
limo as arestas fibrosas dos objectos 
arrumo-os pelo quarto, de preferencia nos cantos 
dou-lhes novos nomes, novas funções, suspiro extenuado 
embora a sonolenta tarefa não tenha sido demorada ....
outra caixa, azulada, abro-a 
entro nela e fecho-a, o escuro solidifica-se na boca 
tenho medo durante a noite alguém se lembrou de atirar fora a caixa...... 
....luzes, umbigos obscurecidos pelas etiquetas 
dos pequenos produtos de consumo, tóxicos 
FRAGIL - MANTER ESTE LADO PARA CIMA 
NÃO INCLINAR 
TIME TO BUY ANOTHER PACKET 
O quarto está completamente mobilado de corpos 
explodem caixas, o sangue alastra 
estampa-se nas paredes sujas de calendários e cromos 
de pin-ups obscenas 
....fendas de bolor no espelho o reflexo do corpo arde como uma decalcomania 
TIME TO BUY ANOTHER PACKET todos dormem dentro de caixas, uma serpente flutua 
falamos baixinho 
não se ouvem mais barulhos de cidade 
o sono e o cansaço subiram-me á boca 
....movemo-nos lentamente para fora de nossos corpos 
e devastamos, devastamos.....

- Al Berto -

This used to be my playground