domingo, 29 de maio de 2016

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"A casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo."


O mundo intoxicante e asfixiante, onde perco os sentidos, o cheiro a bolor a penetrar nas minhas narinas, fazendo confundir norte e sul, este e oeste.

Fujo, cambaleando, deste cheiro que teima em se impregnar nas minhas roupas, essa presença ubíqua a estalar na minha cabeça, fechando as suas garras sobre o meu pescoço dificultando a passagem de ar; o sangue a latejar cada vez mais forte na minha cabeça.

Grito!
Corro desvairada pelo solo pejado de enxofre e de corpos caídos em guerras perpétuas e mesquinhas.

Fujo para a segurança insegura da minha casa, essa casa tão velha e decadente como eu, onde ainda ontem arranjei o soalho e hoje mais uma janela que cai.

Caio sobre a poltrona, cansada e desanimada, com o peso do mundo sobre o meu esqueleto caquético.

Sinto os sentidos abandonarem-me, o corpo a desistir de perceber esse mundo cão.

Estou quase a adormecer…

Amanhã arranjo a janela.

1

Um avô escreve um texto ao seu neto, acabado de nascer:

Querido neto:
Fodi a tua mãe!
Eis a minha infâmia nua e crua…
Fodi a tua mãe,
Esfaqueei-lhe os sonhos e a vontade...


Fodi a tua mãe,
Quis que ela somente respirasse nada mais do que a mediocridade,
Que ela vivesse apenas a passagem interminável dos dias monotonamente iguais.

Fodi a tua mãe,
Reduzi-a a material de limpeza,
A ser companhia da pá, da vassoura e da esfregona
E mesmo estes objetos sentimos-lhes a ausência quando nos faltam.


A tua mãe tornou-se meramente a mulher a dias.
Desgrenhada, invisível, a valer tanto como um grão de pó,
E mesmo assim eu fodi-a,
Prendendo-a aos grilhões da servidão humana.

Espero que me perdoes por ser nada mais do que um velho tonto,
Por ser cobarde,
Por negar a liberdade a uma ave.
Egoísta, quis tê-la só para mim,
Não a quis partilhar om o mundo,
Mas o mundo encarregou-se de a roubar de mim.

Fodi a tua mãe…
Reduzi-a a nada,
E mesmo assim ela deu-me tudo.
Deu-me o mundo, deu-me a ti.

sábado, 28 de março de 2015

Contra a indiferença II

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertolt Brecht

Contra a indiferença I


Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.
Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.

E NÃO SOBROU NINGUÉM, Martin Niemöller


quinta-feira, 12 de março de 2015

...


"Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser"

- Johann Goethe

domingo, 1 de março de 2015

A ler...

http://www.fnac.pt/Living-Thinking-Looking-Siri-Hustvedt/a697545

Solidão

*A minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia."
Friedrich Nietzsche

This used to be my playground