Avançar para o conteúdo principal

O último dia da vida de Ysmael



Ontem o Ysmael foi ao mercado arranjar algo para dar de comer aos seus 4 irmãos e à sua mãe, agarrada à cama desde o último bombardeamento. O pai já há muito que desapareceu; encontra-se na glória de Alá acompanhado pelas virgens que tem direito. Teve uma morte gloriosa: arrebentou um restaurante e matou toda a gente que lá se encontrava. Ysmael deu graças por ter tido um pai tão corajoso...
As habitações que ladeavam o caminho entre o mercado e a casa de Ysmael estavam todas destruídas pelos bombardeamentos, as paredes crivadas de balas, no chão fotografias de quem lá tinham habitado, algumas das quais pertenciam a companheiros de Ysmael, simples miudos de cara redonda e olhos grandes, cujos corpos estavam agora abandonados à sua triste sorte e às moscas...Ysmael pensou que pelo menos agora não podia ir à escola. As aulas tinham sido interrompidas com o começo dos bombardeamentos, e logo na véspera dele apresentar um trabalho que não tinha preparado. Ysmael deu graças pela sua sorte...
Quase a chegar ao mercado, encontra-se o palácio presidencial. Lá dentro os senhores da guerra dispunham as suas peças no tabuleiro de xadrez, escolhiam qual a melhor estratégia, levavam a cabo as suas guerrinhas, sem terem a mínima preocupação com as condições de vida das suas populações ou das suas vitimas. Nos dois lados as casas estavam destruídas, nos dois lados não havia água nem luz, nos dois lados a comida escasseava e os cuidados de saúde não existiam. Nos dois lados, inocentes jaziam no chão, em putrefação, enganados pelos discursos do "bem contra o mal" e pelas promessas de sentar-se no trono da Glória. Cá fora, Ysmael dava graças pela clarividência dos seus líderes e pela sua coragem...
Chegado ao mercado, Ysmael conseguiu arranjar alguns restos de comida. Estava ainda a regatear o preço quando se ouviu um silvo agudo, depois um estrondo, seguido dos gritos alucinantes das pessoas. De seguida o silêncio...
Uma bomba tinha atingido o mercado municipal, não tendo havido sobreviventes...Ysmael, segundos antes de a luz o abandonar, deu graças...afinal ia ser a notícia de abertura dos telejormais de todo o mundo...


Comentários

  1. Foi difícil mas consegui descobrir-te. E não é que nos deu para escrevermos sobre o mesmo assunto? Este horror da guerra...
    "Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar" **

    ResponderEliminar
  2. rodrigues08:02

    o ysmael tal como nós vê um mundo diferente mais agressivo mais violento no qual pouco ou nada interferiu
    o mundo (a sua crensa a sua terraa sua familia o seu gato) sempre lhe foi agreste a vida ou a morte é um négocio que tem que regatear enquanto tiver forças para que o seu valor seja mais que uma bala e atinja o valor de um cinto de esplosivos...
    porquê?
    porque ALÁ é grande e na gerra se não matas morres ...
    mas morre ele e morremos todos mais não seja morremos de medo da fé e da determinação que os move...

    ResponderEliminar
  3. Paz à sua alma... E que morra o Bush e todos os cretinos que operam esta cena

    ResponderEliminar
  4. Quando aproximamos as objectivas das tragédias os números passam a ser nomes e rostos, e apercebemo-nos de que, afinal, foram crianças, homens e mulheres que morreram, e não apenas um aglomerado de gente... Foram pessoas às quais se roubaram as vidas e não apenas uma bomba que caiu no sítio certo.
    O facto de retratares apenas um nome, um só nome, no meio de tanta morte e de tanto sangue tornou este teu texto com uma carga emocional tão superior que me faz querer agarrar nesses milhares de Ysmael de cara redonda e olhos grandes e dar-lhes um abraço impossível que os proteja do mundo.

    Um belo texto, sobre uma realidade tão podre quanto merdosa a cabeça do principal responsável...

    Um beijo triste, com a cabeça a andar à roda...

    ResponderEliminar
  5. Qual delas, a que já fui ou a que ainda vou?????

    ResponderEliminar
  6. pode parecer irónico mas era um puto cheio de sorte,pela morte ke teve. O mesmo não se passam com outros ke agonizam esfomeados até . Ke mundo este em ke vivemos

    ResponderEliminar
  7. Para "Em busca da felicidade": a praia, género baía que tens nas tuas fotos

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

8

Conceito de fim...



Ontem abri aleatoriamente as páginas de um livro, tinha um leve cheiro do teu perfume. Estremeci, a tua memória preencheu-me.

Por momentos esqueci as minhas noites solitárias, tantas noite em que chorei até pensar que já não teria nada dentro de mim, em que todo o sentimento, toda a dor, toda a perda, foram derramadas sobre a almofada, essa almofada a que me agarro nessas noites que parecem não terminar, essa almofada que acalma os pesadelos que teimosamente insistem em visitar-me. Sinto-me oca, vazia, de tanto chorar...A gata, que ocupou o teu lugar na cama, acorda muitas vezes comigo a gritar o teu nome, acorda comigo empapada em suor. Coitada da bichana, mia baixinho junto do meu ouvido, numa tentativa de me reconfortar, o que até resulta, mas os pesadelos da tua ausência são uma visita constante.

Às vezes penso se estes pesadelos não serão a minha consciência a gritar de culpa. Cheguei a desejar a tua morte, sabias? Houve uma altura em que me fartei de correr para…

7

Era uma porta enferrujada. E ela entrou.

O autocarro partiu e a porta atrás dela se fechou.
Carregada de sacos onde cabiam os sonhos que o mundo apagou,
Só pensava em fugir de uma vida sacrificada, na rotina de vida em que tombou.
Saiu de casa com os seus sacos mal o dia madrugou,
Regressa a casa com os seus sacos já a noite se fechou,
Sempre com os seus sacos, mais um dia que acabou.
Carrega uma vida nas pernas que o mundo desengonçou,
As mãos grosseiras, a pele acabada, de tanta casa que limpou.
Quando chega a casa ainda vai cuidar da filha que gerou,
A sopa num ápice tragou,
Enquanto a filha o peito mamou,
Mas de tão cansada nem a própria casa arrumou.
Chega o marido, traste, bêbado, canalha, bate-lhe e ela nem notou,
Mais um dia que se passou.
Deitou-se dorida e sonhou,
Sonhou com uma porta enferrujada que sobre ela se fechou
Ali, com uma pedra com o seu nome ela se deparou
E ela finalmente descansou...