segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sempre e irremediavelmente sós

«Quando as coisas são verdadeiramente importantes, quando se chega ao limite de cada coisa, estamos sós. Sempre e irremediavelmente sós.»

Não te deixarei morrer, David Crockett (A Solidão), Miguel Sousa Tavares

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Being normal is boring...


O tempo sujo

Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção
 
São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
 
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação...
 
- Alexandre O'Neill

Calma Azul



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Nasci Para Morrer Contigo

Nasci para morrer contigo
a cama que tenho dou-te
meu amante meu amigo
não te vás ficar comigo
esta noite toda a noite

Quero que a pele seja trigo
a ondular ao açoite
dos gemidos que te digo
meu amante meu amigo
nasci p´ra morrer contigo
esta noite toda a noite

A gaivota dos meus braços
foi feita para o teu rio
tuas pernas são meus laços
a tua boca dois traços
na boca que o espelho viu

- António Lobo Antunes -

Fado Adivinha

Quem se dá, quem se recusa
quem procura, quem alcança
quem defende, quem acusa
quem se gasta, quem descansa
quem faz nós, quem os desata

Quem morre, quem ressuscita
quem dá a vida, quem mata
quem duvida e acredita
quem afirma, quem desdiz
quem se arrepende, quem não

Quem é feliz e infeliz
quem é, quem é
coração.

Quem é feliz e infeliz
quem é, quem é
coração.
- José Saramago -

Lágrima

Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto
Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo
Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar
- Amália Rodrigues

A Invisibilidade de Deus

dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
- Al Berto

Capitlism

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Nome de rua

Nome de rua quieta / onde à noite ninguém passa... / Onde o ciúme é uma seta, / onde o amor é uma taça... / Nome
de rua secreta / onde à noite ninguém passa... / Onde a sombra do poeta / de repente nos abraça... / Com um pouco
de amargura, / com muito de Madragoa, / e a ruga de quem procura, / e o riso de quem perdoa, / deste-me um nome
de rua, / de uma rua de Lisboa...

- D. Mourão Ferreira

Fado Quimera

Eu quis um violino no telhado / e uma arara exótica no banho. / Eu quis uma toalha de brocado / e um pavão real do
meu tamanho. / Eu quis todos od cheiros do pecado / e toda a santidade que não tenho. / Eu quis uma pintura aos pés
da cama / infinita de azul e perspectiva. / Eu quis ouvir as Cármina Burana / na hora da orgia prometida. / Eu quis
uma opulência de sultana / e a miséria amarga da mendiga. / Eu quis um viho feito de medronho / de veneno, de
beijos, de suspiros. / Eu quis a morte de viver dum sonho / eu quis a sorte de morrer dum tiro. / Eu quis chorar por ti
durante o sono / eu quis ao acordar fugir conyigo. / Mas tudo o que é excessivo é muito pouco. / Por isso fiquei só,
com o meu corpo.

- Rosa Lobato Faria -

Os Velhos Amantes

Amor que grita, amor que cala / amor que ri, amor que chora / mil vezes eu peguei na mala / mil vezes tu te foste
embora / E tanto barco a ir ao fundo / tornava o mar da nossa casa / em oceano de loucura / quando oscilava o nosso
mundo / eu perdia o golpe de asa / e tu o gosto da aventura / Ai meu amor amargo doce e deslumbrante amor / amor
à chuva, amor em sol maior / amor demais amor eterno / Conheço bem os teus desejos / e tu as minhas fantasias /
morreste em mim todos os beijos / nasci em ti todos os dias / Se muita vez fomos traição / e muita vez mudou o vento
/ e muito gesto foi insulto / em tanta dor de mão-em-mão / nós aprendemos o talento / de envelhecer sem ser adultos
/ Ai meu amor amargo doce e deslumbrante amor / amor à chuva, amor em sol maior / amor demais amor eterno / E
quanto mais o tempo passa / e quanto mais a vida flui / e quanto mais se perde a graça / do que tu foste e da que eu
fui / Mais a ternura nos aperta / mais a palavra fica certa / mais o amor toma lugar / envelhecemos mais depressa /
mas nos teus olhos a promessa / vai-se cumprindo devagar / Ai meu amor amargo doce e deslumbrante amor / amor
à chuva, amor em sol maior / amor demais amor eterno.

- Rosa Lobato Faria - 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

ANTES CALADOS

ANTES CALADOS

E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?

(Mais perguntas, amor? Antes calados.)

- José Saramago

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Fecham-se os dedos donde corre a esperança

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

- José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Truque Tóxico

Volto ao quarto de pensão, fumo até ao vómito isto é : drogo-me.....
....abro a caixa de papelão, aparentemente cheia de sonhos 
escolho um, fumo mais erva, nenhum sonho me serve, 
abro a caixa dos pesadelos..... 
o silencio ocupa-me e da caixa libertam-se corpos 
cores violentas, olhares cúbicos, pássaros filiformes 
cadeiras agressivas
limo as arestas fibrosas dos objectos 
arrumo-os pelo quarto, de preferencia nos cantos 
dou-lhes novos nomes, novas funções, suspiro extenuado 
embora a sonolenta tarefa não tenha sido demorada ....
outra caixa, azulada, abro-a 
entro nela e fecho-a, o escuro solidifica-se na boca 
tenho medo durante a noite alguém se lembrou de atirar fora a caixa...... 
....luzes, umbigos obscurecidos pelas etiquetas 
dos pequenos produtos de consumo, tóxicos 
FRAGIL - MANTER ESTE LADO PARA CIMA 
NÃO INCLINAR 
TIME TO BUY ANOTHER PACKET 
O quarto está completamente mobilado de corpos 
explodem caixas, o sangue alastra 
estampa-se nas paredes sujas de calendários e cromos 
de pin-ups obscenas 
....fendas de bolor no espelho o reflexo do corpo arde como uma decalcomania 
TIME TO BUY ANOTHER PACKET todos dormem dentro de caixas, uma serpente flutua 
falamos baixinho 
não se ouvem mais barulhos de cidade 
o sono e o cansaço subiram-me á boca 
....movemo-nos lentamente para fora de nossos corpos 
e devastamos, devastamos.....

- Al Berto -

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Sou Eu

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, 
Espécie de acessório ou sobressalente próprio, 
Arredores irregulares da minha emoção sincera, 
Sou eu aqui em mim, sou eu. 

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. 
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. 
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim. 

(…)”

Álvaro de Campos, in “Poemas”

sábado, 13 de julho de 2013

Mas (Só gosto de ti)

Chegaste com a luz
Que traz a primavera
Silhueta que seduz
Quando nada se espera.

Entraste no abrigo
Onde a vida me guarda
Um beijo e um sorriso
Tocaste a minha alma
A minha alma.

 Mas só gosto de ti
Haja o que houver
Será sempre assim
Venha quem vier.

Tomaste conta de mim
E do meu coração
Mulher que um dia vi
Perdida de paixão.

Sei que por ti esperei
Mil anos de vidas
Amor que encontrei

Nada é impossível
Impossível.

Mas só gosto de ti
Haja o que houver
Será sempre assim
Venha quem vier

Mas (Só gosto de ti) - UHF

A VOLTA AO MUNDO

Nós somos um, nós somos iguais
Em vez de falarmos mandamos postais
Nós somos dois, nós somos pardais
Fomos alvejados por cantar demais 

Tira-me os pregos debaixo dos pés
Vamos caminhar por outras marés

 Eu vou dar a volta ao mundo
Para roubar mais um segundo
Quero beijos seus

Voltarei em boa hora
O regresso não demora
Quero beijos teus

Nós desta vez sabemos que prevês
Casar viver nas torres de um jogo de xadrez
Tira-me os pregos debaixo dos pés
Vamos caminhar por outras marés

Eu vou dar a volta ao mundo
Para roubar mais um segundo
Quero beijos teus

Voltarei em boa hora
O regresso não demora
Quero beijos teus

Ciclo Preparatório e Lena d'Água

terça-feira, 9 de julho de 2013

Soberania??

Ficámos a saber que Paulo Portas é homem capaz de trair na sexta-feira a consciência pessoal que invocara na terça-feira para tomar a decisão "irrevogável" de sair do Governo. Apreendemos as maravilhas de ser país do Eurogrupo com dívida de 72 mil milhões de euros ao FMI, à Comissão Europeia e ao BCE: só podemos ter um ministro das Finanças se aquela troika gostar, só podemos antecipar eleições se essa troika não se importar, só podemos mudar de governo se a dita troika nada objetar. E sem discussão! Não sabemos, caso tenhamos eleições regulares em 2015, se os resultados terão, também, de ser previamente aprovados. Talvez não. Ensinaram-nos mais: o Presidente da República só dá opinião sobre um novo acordo de coligação governamental depois de o senhor holandês Jeroen Dijsselbloem dizer que está "muito satisfeito" com o resultado e de o senhor alemão Wolfgang Schäuble ratificar "o bom caminho" retomado... Nem a Madeira nem os Açores, alguma vez, se sujeitaram a uma humilhação assim face ao Continente. E bem. Fomos intruídos, portanto, num novo facto: Portugal é a caricatura de um Estado independente. Em vez de tentar encontrar um caminho para inverter o processo de aniquilação da sua autodeterminação, deixa-se comprar, aceita corromper-se para, daqui a um ano, poder endividar-se mais - no mercado ou num "programa cautelar", o novo resgate - com uns caridosos mas incomportáveis juros de cinco ou seis por cento, qual viciado numa toxicodependência de crédito para pagar crédito cujo fluxo o traficante, metódico, assegura com fria eficácia. Depois de um jornal económico, na quarta-feira, manchetar "Empresários e banqueiros recusam eleições antecipadas", a turba de comentadores que na terça-feira reclamava "demissão, demissão!" passou, lesta e aditivada por gestores, analistas de ações e o governador do Banco de Portugal, a implorar "estabilidade, estabilidade!". E até o novo patriarca, putativo pastor de almas, foi atrás do rebanho apavorado pela bolsa, a cotação da dívida e a Standard & Poors. O senhor que provocou esta crise falou alto, mas, depois, ouviu das boas dos amigos do partido, dos amigos da coligação, dos amigos da banca, dos amigos empresários, dos amigos europeus, do amigo Pedro. Respondeu baixinho: "Perdoem-me." Jura agora que vai fazer voz grossa à troika. Que anedota! E os pensionistas, que viram em Portas um salvador, bem podem esperar pela reforma do Estado que este homem lhes vai entregar numa bandeja, de consciência tranquila. Finalmente, uma última lição: a direita, para sobreviver, é capaz de tudo. A esquerda, em contrapartida, nem sabe como viver.


http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3312202&seccao=Pedro Tadeu&tag=Opini%E3o - Em Foco&page=-1

A republica das bananas

Para não destoar de um dia surreal, quando cheguei ao Palácio de Belém e me indicaram a entrada pelo Museu da Presidência, ninguém me perguntou nada ou pediu identificação. Achei estranho, mas, francamente, o que é que é estranho num dia assim? Lá me passaram o saco naquela coisa para ver das bombas e mandaram-me "subir a rampinha". Quando lá cheguei acima, à sala de chão preto e branco que conhecemos das TV e onde as câmaras e jornalistas se acumulam, uma senhora sorridente perguntou-me: "É familiar?" Confusa, respondi: "Não, sou jornalista." A senhora pareceu igualmente confusa, dando lugar a um segurança que me exigiu a identificação e me informou de que teria de "ir lá abaixo"(à entrada do palácio) "acreditar-me". Ou seja: se tivesse respondido "sim" à senhora, poderia entrar e assistir, tirar notas se me apetecesse e até talvez fotografar com o telefone; sendo jornalista, tinha de voltar atrás e de caminho perder a cerimónia, que durou poucos minutos. A irracionalidade do postulado, que se coroou na explicação do segurança da porta - "Achei-a tão bem vestida que não pensei que fosse jornalista" é, no seu delírio, uma boa caricatura daquilo que ontem, a partir das cinco e pouco da tarde, sucedeu em Belém. Ou seja, a substituição do demissionário Vítor Gaspar pela sua secretária de Estado que no briefing do dia anterior desmentira o ministro que a desmentira a ela (sobre a passagem de informação por parte da equipa ministerial anterior sobre os swaps contratados por empresas públicas) e pouco mais de uma hora depois de a notícia da demissão do ministro dos Negócios Estrangeiros e líder do segundo partido da coligação ter dado aquilo que parecia ser o golpe de misericórdia num Executivo que a demissão de Gaspar deixara de joelhos. Mas se a ausência de Paulo Portas e dos dois outros ministros do CDS-PP - Assunção Cristas e Mota Soares - indiciariam que o seu partido estava já fora, a presença do centrista Paulo Núncio, reconduzido como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, baralhava e tornava a dar. Como, de resto, os risos largos de Passos ao cumprimentar o seu ex-ministro das Finanças cuja carta o acusa de chefiar um Governo sem coesão, ou os sorrisos entre Gaspar e a nova ministra, Maria Luís Albuquerque, suposta continuar a política que ele considerou, na missiva de demissão, ter falhado em toda a linha. Tanta boa disposição e descontração afetadas, porém, não chegaram para que a ministra das Finanças e Passos Coelho passassem pelos jornalistas concen- trados no lobby do palácio, que esperaram em vão. Estará a apresentar a demissão ao Presidente?", aventava-se. Como se viu, (ainda?) não.

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3301687&seccao=Fernanda C%E2ncio&tag=Opini%E3o - Em Foco

Quem aterrasse ontem em Portugal ficaria certamente com a convicção de que estava a subir ao palco de uma ópera-bufa. O Presidente da República confere posse a uma ministra das Finanças - que, inusitadamente, entra tão ou mais fragilizada do que o seu antecessor - de um governo em manifesto estado de decomposição. Um ministro de Estado anuncia, meia hora antes, que não consegue dissimular mais e por isso bate, irrevogavelmente, com a porta. O primeiro-ministro, pasmado e numa atitude de altruísmo para com o País, diz que não aceita, que quer evitar uma crise política - como diz? -, insinua que ainda confia em Paulo Portas - perdão? - e que quer ouvir o parceiro de coligação - agora? Da véspera sobravam ainda os estilhaços da demissão de outro ministro de Estado, Vítor Gaspar, que na carta que escreveu aos portugueses - uma vez que a quis publicitar - desafia o primeiro-ministro a assumir, também ele, as suas responsabilidades pelos falhanços sucessivos na política austeritária. Tudo isto ao segundo dia de briefing em que, pasme--se, se fez a profissão de fé na coesão e na unidade da coligação. Em Belém, ao que consta, ninguém sabia nem cuidou de saber das objeções do CDS a Maria Luís Albuquerque. Em São Bento, ninguém quis saber, reiteradamente, ao que parece, dos argumentos de Paulo Portas. E, perante toda esta tragédia, há um personagem que assiste impávido, sereno e cúmplice à exibição pública do irregular funcionamento das instituições. Há umas semanas, Cavaco Silva dizia que o País não suportaria somar uma crise política às dificuldades económicas e financeiras de que padece. Não sei em que redoma vivem o Presidente e o primeiro-ministro, mas quero dizer-lhes, caso não se tenham apercebido, que estamos em crise política, permanente e agonizante, desde 7 de setembro de 2012, o dia da TSU. Chegados aqui, qual pântano, não há modo de sair dele sem que haja eleições. Porque, como disse um ex-líder da oposição, de seu nome Pedro Passos Coelho, "não aceitaremos chantagens de estabilidade, não aceitamos o clima emocional de que quem não está caladinho não é patriota".

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3301723

sexta-feira, 7 de junho de 2013

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O silêncio dos inocentes

Walking in sunset

Doze Moradas do Silêncio

Doze Moradas do Silêncio

Envolver-me na mais obscura solidão das searas e gemer
Amassar com os dentes uma morte íntima
Durante a sonolência balbuciante das papoulas

Prolongar a vida deste verão até ao mais próximo verão para que os corpos tenham tempo de amadurecer ...
colher em tuas coxas o sumo espesso e no calor molhado da noite seduzir as luas o riso dos jovens pastores desprevenidos...
as bocas do gado triturando o restolho....
as correrias inesperadas das aves rasteiras ....
e crescerei das fecundas terras ou da morte que sufoca o cio da boca..... .
subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente trasmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes.

 - AL BERTO

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Ensaio sobre a cegueira

Penso que não cegámos, penso que estamos cegos,

Cegos que vêem,
Cegos que, vendo, não vêem.

- José Saramago



quarta-feira, 29 de maio de 2013

Fala-me do amor

fala-me tu do Amor e dessa coisa esquisita que é o tempo com quatro dedos de distância entre o ardor das línguas e a asfixia dos corpos.

fala-me tu do Amor e desse desejo que arrasta a proximidade que anula todos os intervalos em pequenas existências que de tão insignificantes desaparecem numa doçura e amargura.

conta-me do constante faz e refaz, de ressuscitar e morrer, de adormecer e sonhar, do conforto da luz dos dias na realidade que nos mata. porque do Amor também se morre e também se vive, como alimentação programada às calorias necessárias para respondermos.

- Al Berto

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um Homem na Cidade

"Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que se deságua no Rossio.

Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem!"

Um Homem na Cidade (José Carlos Ary dos Santos)

segunda-feira, 13 de maio de 2013

We missed each other...


de profundis amamus

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria.
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros.

 - Mário Cesariny

I love you...

"I love that you get cold when it’s 71 degrees out. I love that it takes you an hour and a half to order a sandwich. I love that you get a little crinkle above your nose when you’re looking at me like I’m nuts. I love that after I spend the day with you, I can still smell your perfume on my clothes. And I love that you are the last person I want to talk to before I go to sleep at night. And it’s not because I’m lonely, and it’s not because it’s New Year’s Eve. I came here tonight because when you realize you want to spend the rest of your life with somebody, you want the rest of your life to start as soon as possible."

- From the movie "When Harry met Sally"

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Pássaro Azul


Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te. há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu despejo whisky para cima dele e inalo fumo de cigarros e as putas e os empregados de bar e os funcionários da mercearia nunca saberão que ele se encontra lá dentro. há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica escondido, queres arruinar-me? queres foder-me o meu trabalho? queres arruinar as minhas vendas de livros na Europa? há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?-Charles Bukowski

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

This Is The Day

And all your friends and family think that you're lucky.
But the side of you they'll never see
Is when you're left alone with the memories
That hold your life together like ...glue.

This Is The Day - The The

My paradise