domingo, 29 de maio de 2016

3

"Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor."

Como a história de amor do sr. Zé e do Tobias.
O sr. Zé tinha setenta e poucos anos, e resmungava por tudo e por nada, sendo esta a sua característica mais marcante. Sempre às avessas com a vida, nunca se lhe ouvindo um obrigado, uma palavra agradável ou um mero sorriso.
Comprava diariamente o jornal, indo sentar-se no jardim a ler as últimas noticias, e foi neste local  que decorreu o encontro entre o sr. Zé e o Tobias. Um belo dia estando a ler o jornal, o velho sentiu algo a roçar nas pernas. Baixando os olhos deu de caras com um gatito, negro como a noite, enfezado e sujo, a emitir leves miados. O sr. Zé afastou com a perna o bichano, mas este teimava em roçar-se nele; depois de algumas tentativas infrutíferas para afastar o animal, o idoso levantou-se incomodado, repetindo-se este episódio nos três dias seguintes. Nessa noite, o termómetro desceu, com a chuva e o vento a fustigar as ruas, e sem saber porquê o sr. Zé deu por si a pensar naquele bichano enfezado ao frio e relento. Nas suas idas ao jardim esperou pelo animal até que o sol se pôs, e quando o gato não apareceu, o seu coração apertou-se. Ao terceiro dia, já sem esperanças, sentou-se no banco do jardim, ouvindo um miado fraquinho. O seu coração deu um salto, era o gato preto. O sr. Zé correru até à mercearia buscar leite e um pouco de comida, até obrigado disse, e foi a correr alimentar o bicharoco, levando-o para casa.
Um mês depois o sr. Zé passeava alegremente pela rua, cumprimentando quem passasse por ele, com um sorriso nos lábios, e um gato preto de pêlo luzidio e bem tratado atrás dele.

"Vamos Tobias" disse "Vamos passear no jardim".

2

"A casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo."
O mundo intoxicante e asfixiante, onde perco os sentidos, o cheiro a bolor a penetrar nas minhas narinas, fazendo confundir norte e sul, este e oeste.
Fujo, cambaleando, deste cheiro que teima em se impregnar nas minhas roupas, essa presença ubíqua a estalar na minha cabeça, fechando as suas garras sobre o meu pescoço dificultando a passagem de ar; o sangue a latejar cada vez mais forte na minha cabeça.
Grito!
Corro desvairada pelo solo pejado de enxofre e de corpos caídos em guerras perpétuas e mesquinhas.
Fujo para a segurança insegura da minha casa, essa casa tão velha e decadente como eu, onde ainda ontem arranjei o soalho e hoje mais uma janela que cai.
Caio sobre a poltrona, cansada e desanimada, com o peso do mundo sobre o meu esqueleto caquético.
Sinto os sentidos abandonarem-me, o corpo a desistir de perceber esse mundo cão.
Estou quase a adormecer…

Amanhã arranjo a janela.

1

Um avô escreve um texto ao seu neto, acabado de nascer:
Querido neto:
Fodi a tua mãe!
Eis a minha infâmia nua e crua…
Fodi a tua mãe,
Esfaqueei-lhe os sonhos e a vontade...
Fodi a tua mãe,
Quis que ela somente respirasse nada mais do que a mediocridade,
Que ela vivesse apenas a passagem interminável dos dias monotonamente iguais.
Fodi a tua mãe,
Reduzi-a a material de limpeza,
A ser companhia da pá, da vassoura e da esfregona
E mesmo estes objetos sentimos-lhes a ausência quando nos faltam.
A tua mãe tornou-se meramente a mulher a dias.
Desgrenhada, invisível, a valer tanto como um grão de pó,
E mesmo assim eu fodi-a,
Prendendo-a aos grilhões da servidão humana.
Espero que me perdoes por ser nada mais do que um velho tonto,
Por ser cobarde,
Por negar a liberdade a uma ave.
Egoísta, quis tê-la só para mim,
Não a quis partilhar om o mundo,
Mas o mundo encarregou-se de a roubar de mim.
Fodi a tua mãe…
Reduzi-a a nada,
E mesmo assim ela deu-me tudo.
Deu-me o mundo, deu-me a ti.

My paradise