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Um avô escreve um texto ao seu neto, acabado de nascer:
Querido neto:
Fodi a tua mãe!
Eis a minha infâmia nua e crua…
Fodi a tua mãe,
Esfaqueei-lhe os sonhos e a vontade...
Fodi a tua mãe,
Quis que ela somente respirasse nada mais do que a mediocridade,
Que ela vivesse apenas a passagem interminável dos dias monotonamente iguais.
Fodi a tua mãe,
Reduzi-a a material de limpeza,
A ser companhia da pá, da vassoura e da esfregona
E mesmo estes objetos sentimos-lhes a ausência quando nos faltam.
A tua mãe tornou-se meramente a mulher a dias.
Desgrenhada, invisível, a valer tanto como um grão de pó,
E mesmo assim eu fodi-a,
Prendendo-a aos grilhões da servidão humana.
Espero que me perdoes por ser nada mais do que um velho tonto,
Por ser cobarde,
Por negar a liberdade a uma ave.
Egoísta, quis tê-la só para mim,
Não a quis partilhar om o mundo,
Mas o mundo encarregou-se de a roubar de mim.
Fodi a tua mãe…
Reduzi-a a nada,
E mesmo assim ela deu-me tudo.
Deu-me o mundo, deu-me a ti.

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Conceito de fim...



Ontem abri aleatoriamente as páginas de um livro, tinha um leve cheiro do teu perfume. Estremeci, a tua memória preencheu-me.

Por momentos esqueci as minhas noites solitárias, tantas noite em que chorei até pensar que já não teria nada dentro de mim, em que todo o sentimento, toda a dor, toda a perda, foram derramadas sobre a almofada, essa almofada a que me agarro nessas noites que parecem não terminar, essa almofada que acalma os pesadelos que teimosamente insistem em visitar-me. Sinto-me oca, vazia, de tanto chorar...A gata, que ocupou o teu lugar na cama, acorda muitas vezes comigo a gritar o teu nome, acorda comigo empapada em suor. Coitada da bichana, mia baixinho junto do meu ouvido, numa tentativa de me reconfortar, o que até resulta, mas os pesadelos da tua ausência são uma visita constante.

Às vezes penso se estes pesadelos não serão a minha consciência a gritar de culpa. Cheguei a desejar a tua morte, sabias? Houve uma altura em que me fartei de correr para…

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Era uma porta enferrujada. E ela entrou.

O autocarro partiu e a porta atrás dela se fechou.
Carregada de sacos onde cabiam os sonhos que o mundo apagou,
Só pensava em fugir de uma vida sacrificada, na rotina de vida em que tombou.
Saiu de casa com os seus sacos mal o dia madrugou,
Regressa a casa com os seus sacos já a noite se fechou,
Sempre com os seus sacos, mais um dia que acabou.
Carrega uma vida nas pernas que o mundo desengonçou,
As mãos grosseiras, a pele acabada, de tanta casa que limpou.
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A sopa num ápice tragou,
Enquanto a filha o peito mamou,
Mas de tão cansada nem a própria casa arrumou.
Chega o marido, traste, bêbado, canalha, bate-lhe e ela nem notou,
Mais um dia que se passou.
Deitou-se dorida e sonhou,
Sonhou com uma porta enferrujada que sobre ela se fechou
Ali, com uma pedra com o seu nome ela se deparou
E ela finalmente descansou...