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"Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor."

Como a história de amor do sr. Zé e do Tobias.
O sr. Zé tinha setenta e poucos anos, e resmungava por tudo e por nada, sendo esta a sua característica mais marcante. Sempre às avessas com a vida, nunca se lhe ouvindo um obrigado, uma palavra agradável ou um mero sorriso.
Comprava diariamente o jornal, indo sentar-se no jardim a ler as últimas noticias, e foi neste local  que decorreu o encontro entre o sr. Zé e o Tobias. Um belo dia estando a ler o jornal, o velho sentiu algo a roçar nas pernas. Baixando os olhos deu de caras com um gatito, negro como a noite, enfezado e sujo, a emitir leves miados. O sr. Zé afastou com a perna o bichano, mas este teimava em roçar-se nele; depois de algumas tentativas infrutíferas para afastar o animal, o idoso levantou-se incomodado, repetindo-se este episódio nos três dias seguintes. Nessa noite, o termómetro desceu, com a chuva e o vento a fustigar as ruas, e sem saber porquê o sr. Zé deu por si a pensar naquele bichano enfezado ao frio e relento. Nas suas idas ao jardim esperou pelo animal até que o sol se pôs, e quando o gato não apareceu, o seu coração apertou-se. Ao terceiro dia, já sem esperanças, sentou-se no banco do jardim, ouvindo um miado fraquinho. O seu coração deu um salto, era o gato preto. O sr. Zé correru até à mercearia buscar leite e um pouco de comida, até obrigado disse, e foi a correr alimentar o bicharoco, levando-o para casa.
Um mês depois o sr. Zé passeava alegremente pela rua, cumprimentando quem passasse por ele, com um sorriso nos lábios, e um gato preto de pêlo luzidio e bem tratado atrás dele.

"Vamos Tobias" disse "Vamos passear no jardim".

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