quarta-feira, 13 de julho de 2016

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E se fosse proibido abraçar?


João,

Esta carta não é um pedido de perdão, é uma tentativa egoísta de limpar a consciência. Bem ao meu jeito, dirás tu…

Tivemos uma relação conturbada e sei que a mim e aos meus medos se deveu.

Vivi uma vida dupla, de dia, marido e pai extremoso, à noite era um gajo que não tinha problema nenhum em ir para um qualquer quarto escuro de uma qualquer discoteca e fazer um broche a um quase perfeito desconhecido. Não te importas-te, acreditavas em finais felizes e que o amor tudo pode conquistar, nem te passava pela cabeça que existem muitos cabrões por aí e que eu poderia ser um deles.

Entraste de mansinho na minha vida com o teu jeito sossegado e discreto, com o teu sóbrio silêncio a povoar os meus dias, e os teus carinhos a aquecerem as minhas noites.

Quiseste levar a tua felicidade para o mundo, quiseste levar a nossa cumplicidade para fora das quatro paredes, e eu tive medo. Não pela minha mulher, pois acho que ela, primeiro que eu, soube das minhas preferências sexuais, mas pelo mundo. Esse mundo que via em mim um marido, um pai, o bem sucedido gestor dum banco, o gajo que joga à bola, e que bebe umas cervejas com os amigos.

E se o mundo me visse a abraçar-te em plena rua? O que diriam? Paneleiro, era o que diriam!!

Os gajos da bola com medo que eu os apreciasse no balneário, os amigos por já não poderem gozar com as bichas, e não fazer agora qualquer sentido galar as miúdas.

O mundo subjugou-me, não te deixei dar-me um simples abraço, e tudo por medo, somente medo, e agora faz-me falta o teu abraço..

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