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O discurso de uma criança de cinco anos para o mundo

Tenho 5 anos e chamo—me Ana, e acho que tu, mundo, és um lugar triste porque estás sempre a fazer as pessoas chorarem, como a minha mãe por exemplo. Ela brinca muito comigo, e faz—me rir muito, é muito divertida, mas às vezes à noite eu ouço—a a chorar muito baixinho. Deve ter saudades do meu pai, eu também tenho muitas, a minha mãe diz que ele morreu com overdose. Eu não sei o que essa palavra quer dizer, mas acho que deve ter a ver com as picas que tinha no braço. Durante algum tempo, sempre que ia ao médico levar a vacina ficava cheia de medo de morrer, e não queria ir, mas a minha mãe disse que há picadas boas e picadas más.

No outro dia no supermercado, encontrámos a vizinha e ela estava a chorar. Disse que os homens das Finanças tinham ido lá a casa, e que ia ficar sem casa. Fiquei muito assustada, e nesse dia à noite perguntei à minha mãe se nós também íamos ficar sem casa. Ela respondeu que não, que ia fazer tudo para que isso não acontecesse, mas toda a gente aqui no bairro está assustada e triste. De vez em quando vejo as pessoas chorarem e dizerem que as Finanças lhe ficaram com a casa, com o carro ou com o ordenado. Devem ser mesmo maus e sempre que eu não quero comer a sopa, a minha mãe diz que vai chamar os homens das Finanças. Como logo tudo, tudo, nem deixo nada no prato.

Mas também acho que tens coisas bonitas, tenho muitos amigos e brincamos até anoitecer.

Mas a coisa mais bonita que tens é o sorriso e o abraço da minha mãe.




Da tua amiga, Ana.

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