Avançar para o conteúdo principal

Avó

Tinha recebido a carta da avó há uma semana avisando-a da sua vinda. Ansiava pelo reencontro com aquela anciã, de cãs alvos e face iluminada pela sua bondade interior, pois já não a via há algum tempo...desde que tinha tinha deixado o Norte e rumado a Lisboa, altura em que ela, decididamente, cortou com o passado e com a mágoa que paisagens tão familiares lhe trazia, e partiu em busca de novas cores e nova caras.A avó tinha-a acompanhado desde sempre, quer enquanto adolescente insegura, ajudando-a a desvendar os segredos da sua feminilidade, quer enquanto adulta apoiando-a nas mudanças da sua vida, como esta que estava agora a atravessar. Tinha sido sua patrona por diversas vezes perante a mãe, protegendo-a da ira materna sempre que ela tinha um comportamento considerado mais rebelde, nunca a julgando e sempre estando do lado dela com aquele sorriso sereno e tão tranquilizante. E sempre que ansiava pelo conhecimento da vida e precisava de respostas, recorria à avó como se de um oráculo se tratasse, bebendo aquelas palavras que a alertavam contra os sofismas e paralogismos do mundo, e lhe diziam para não ter pressa de crescer...
Sorriu...
A campainha tocou...
A avó chegou...


9ºJogo das 12 Palavras, in Eremitério

Comentários

  1. tenho saudades das minhas...

    beijinhossssss Mac

    ResponderEliminar
  2. Bom dia,

    Queria apenas felicita-la pelo excelente texto.

    Muito obrigado
    Vicente

    ResponderEliminar
  3. Uma "avó" terna que aqui me lembra a minha!
    Um beijinho de boa Alegria em Festas para esse teu sorriso!

    ResponderEliminar
  4. Um excelente exercício e muito bem conseguido.

    Boas Festas Mac, um 2009 repleto de realizações.

    Grande abraço.

    ResponderEliminar
  5. Sempre a impressionar!
    Mais um texto repleto de emoções e sentimentos que contagiam o leitor e obrigam a recordar o passado agora ausente e distante.
    Parabéns miúda, é fantástico como consegues em poucas palavras e com simplicidade descrever pensamentos e memórias.
    Tone

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

8

Conceito de fim...



Ontem abri aleatoriamente as páginas de um livro, tinha um leve cheiro do teu perfume. Estremeci, a tua memória preencheu-me.

Por momentos esqueci as minhas noites solitárias, tantas noite em que chorei até pensar que já não teria nada dentro de mim, em que todo o sentimento, toda a dor, toda a perda, foram derramadas sobre a almofada, essa almofada a que me agarro nessas noites que parecem não terminar, essa almofada que acalma os pesadelos que teimosamente insistem em visitar-me. Sinto-me oca, vazia, de tanto chorar...A gata, que ocupou o teu lugar na cama, acorda muitas vezes comigo a gritar o teu nome, acorda comigo empapada em suor. Coitada da bichana, mia baixinho junto do meu ouvido, numa tentativa de me reconfortar, o que até resulta, mas os pesadelos da tua ausência são uma visita constante.

Às vezes penso se estes pesadelos não serão a minha consciência a gritar de culpa. Cheguei a desejar a tua morte, sabias? Houve uma altura em que me fartei de correr para…

7

Era uma porta enferrujada. E ela entrou.

O autocarro partiu e a porta atrás dela se fechou.
Carregada de sacos onde cabiam os sonhos que o mundo apagou,
Só pensava em fugir de uma vida sacrificada, na rotina de vida em que tombou.
Saiu de casa com os seus sacos mal o dia madrugou,
Regressa a casa com os seus sacos já a noite se fechou,
Sempre com os seus sacos, mais um dia que acabou.
Carrega uma vida nas pernas que o mundo desengonçou,
As mãos grosseiras, a pele acabada, de tanta casa que limpou.
Quando chega a casa ainda vai cuidar da filha que gerou,
A sopa num ápice tragou,
Enquanto a filha o peito mamou,
Mas de tão cansada nem a própria casa arrumou.
Chega o marido, traste, bêbado, canalha, bate-lhe e ela nem notou,
Mais um dia que se passou.
Deitou-se dorida e sonhou,
Sonhou com uma porta enferrujada que sobre ela se fechou
Ali, com uma pedra com o seu nome ela se deparou
E ela finalmente descansou...