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Aldeia


Ele ajeitou a sacola já coçada da tropa ao ombro e preparou-se para subir o degrau do comboio regional. Depois duma semana de campo estafante, sempre debaixo de chuva e a ouvir a gritaria do sargento de instrução, e os ossos e a mente a pedirem-lhe descanso, aquela licença de fim de semana ia saber-lhe mesmo bem.
Ia de visita à terra, aquela pequena aldeia no meio do vale. Aquela aldeia que o viu nascer e fazer-se homem, testemunha dos seus amores e desamores e sorriu ao lembrar-se da sua terra e das suas tropelias enquanto moço. Era uma aldeia cruzada por apenas por meia dúzia de ruas que subiam e desciam conforme o relevo natural do vale, onde flores de várias cores e de vários cheiros espreitavam nos beirais das janelas; ali ao lado corria um ribeiro, onde os miudos e graúdos se iam banhar para se refrescarem do sol escaldante da época do estio. Era uma delícia ver o pequeno caudal encher-se de risos e de piruetas mirabolantes, a tentarem impressionar os elementos do sexo feminino ali presentes. Nas noites de Inverno, quando a sombra da noite tocava o vale mais cedo do que o habitual, e o frio se fazia sentir, acendia-se uma fogueira no centro da aldeia. O fogo que ao inicio surgia timido e ténue, em breve dava lugar a enormes labaredas, proporcionando troca de conversas entre novos e velhos, onde as tradições orais e os conhecimentos dos antigos eram passados para a próxima geração, criando-se assim uma atmosfera envolvente e de convívio.
A casa da tia Joaquina era a mais frequentada...fazia uns doces e bolos de criar água na boca, vendendo-os no mercado municipal da vila. Ela bem enxotava os miudos à vassourada, mas não adiantava...depois de se banharem no ribeiro, eles passavam religiosamente na sua casa, e apesar dos seus protestos, ela dava-lhes sempre uma generosa fatia de bolo de chocolate.
Lembrava-se ainda daquele ano em que queria comprar uma prenda para a sua primeira namorada e não tinha dinheiro. Pegou então numa caixa e lá depositou graxa e uma série de escovas, e andou de porta e porta a engraxar os sapatos aos aldeões, os quais aderiram cumplicemente a esta iniciativa, uma vez que sabiam desta paixoneta, e queriam ajudá-lo a fazer boa figura. Afinal não há amor como o primeiro, e quando as coisas acabaram, ele ficou com o coração destroçado. Ele tinha a ilusão, própria dos primeiros amores, que este seria um amor para a vida.
Ele acordou dos seus devaneios, acordado pelo estremecer do comboio na linha, e olhou lá para fora...ainda tinha uma longa viagem pela frente até à sua pequena aldeia, aquela aldeia no meio do vale...



Texto publicado no 2ºJogo das Palavras no Eremitério

Comentários

  1. Lá está o DEGRAU da VIDA ENVOLVENTE, numa VIAGEM, sem LICENÇA, pela LINHA, mas bordejada de FLORES, com a cumplicidade quer do SOL, quer da TÉNUE SOMBRA, carregando a CAIXA com o bolo de CHOCOLATE.

    Gostei da história e da ilusão que a juventude e inexperiência provocam ...

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  2. Muito bom! Clap!Clap! Belas recordações de uma aldeia muito bonita: Beselga... Saudades de lá voltar :P

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