Avançar para o conteúdo principal

Deixa-me ir...

Ela tinha vivido os últimos meses no fio da agulha, dia após dia, dependente daquela substância milagrosa, qua afastava aquelas picadas alucinantes de dor e dava-lhe forças para aguentar mais um dia. Encontrava-se agora no limite das suas forças, depois da noite horrível que passou e que ela sabia ser a última. Ela olhou para o lado e os seus olhos encontraram-se com o do marido, junto à cabeceira daquela cama de hospital.

Ele também tinha passado por muito nestes últimos tempos, dando-lhe esperança e forças para combater aquele mal que se tinha apoderado dela, e que lhe corroia o corpo e os sentidos, acompanhando-a durante todo aquele caminho doloroso, gastando as precárias poupanças da família para lhe proporcionar mais um dia de vida.
Vida...Que vida? Se àquilo poderia-se chamar vida...Até já sentia o cheiro da sua carne em decomposição...Meu Deus, ao ponto que pode chegar a degradação humana...

Ele, que nem sequer acreditava na existência de Deus, e que agora pedia para ter mais 1 dia para poder abraçá-la...um sentimento egoísta, ele sabia-o. Sentiu as lágrimas a teimarem em aparecer, fazendo um esforço para contê-las. Ela não devia vê-lo chorar.

"Tens de me deixar ir. Tens de me libertar...", ouviu ela a sussurar por entre os gorgolelos de sangue que já lhe atacavam a garganta. Ele sabia que era verdade...deixou as lágrimas correrem livremente. "Descansa em paz minha querida, obrigada pela felicidade que me proporcionaste. Amo-te muito". E apesar do mar de dores em que ela se encontrava, ela sorriu e soltou um último suspiro.

Ele ficou a olhar aquele corpo mirrado, magro, miserável e quase irreconhecível. A batalha tinha sido ganha pelo cancro...

© MAC -

Comentários

  1. Arrepiante...mas sabes, continuo sem perceber, com a tecnologia que existe hoje, como demoram tanto tempo a descobrir uma cura para esta doença. Tenhamos esperança no futuro. Boa semana e obrigado pelos inteligentes comentários lá no Tiros.

    ResponderEliminar
  2. Mais uma batalha ganha pelo monstro e descrita aqui com muita sensibilidade.

    Abraço.

    ResponderEliminar
  3. No outro dia ouvia o Pessoal e Transmissivel na Tsf e falava-se da morte.O C.V.M entrevistava uma psicologa francesa ke já tinha assistido a dezenas de mortes e de toda a conversa duas coisas me marcaram +. foi de ela ter dito ke ninguém estava preparado para morrer (achamos ke verdadeiramente nao nos acontecer) e de ke devíamos viver todos os dias como se do último se tratasse.

    Gostei da tua história,relato da realidade.

    beijinhos

    ResponderEliminar
  4. Gala, encaro a morte como um percurso natural, e também acho que o ego humano não é capaz de lidar com a sua ñ existência (como o Jean Baptiste, lembras-te?), mas a morte pelo cancro é uma das piores mortes que existem, e devemos contribuir na medida de cada um de nós. Eu já contribui na Corrida da Mulher (a favor do Cancro da Mama). E tu?

    ResponderEliminar
  5. Mac, ja agora aproveito para te fazer um comentario, mas nao sobre o teu texto... essa musica de Nick Cave foi a primeira que ouvi dele, acreditas? :))) Abraço

    ResponderEliminar
  6. eu contribuo todos os anos fazendo exames e ecografias a ver se não sou apanhada na eskina :( noc noc noc (na madeira ) ainda hoje uma colega de trabalho estava com enxaquecas ke a fazem vomitar e o meu conselho foi não te distraias ve a causa disso,faz um tac. e ela respondeu-me "ah tenho medo" é uma postura...
    A sensibilização boca-a-boca tb é importante senão + importante ke caminhadas onde se recorda kem foi o vip ke lá esteve e não a causa em si.

    beijos

    ResponderEliminar
  7. Senhora das Águas, espero que tenhas gostado de Nick Cave. Vale a pena escutá-lo.

    ResponderEliminar
  8. Hoje surpreendes-me com a amplitude deste post...
    Não o vou comentar..apenas por o sinto dentro de mim e reservo o comment para mim mesmo...
    Perdoa....
    Quero agradecer-te o comment que fizeste no meu ultimo post!
    Agradeço-to do fundo do coração!
    Só por ele valeu a pena escrever o post!
    Obrigada querida Mac!

    Paulo

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

8

Conceito de fim...



Ontem abri aleatoriamente as páginas de um livro, tinha um leve cheiro do teu perfume. Estremeci, a tua memória preencheu-me.

Por momentos esqueci as minhas noites solitárias, tantas noite em que chorei até pensar que já não teria nada dentro de mim, em que todo o sentimento, toda a dor, toda a perda, foram derramadas sobre a almofada, essa almofada a que me agarro nessas noites que parecem não terminar, essa almofada que acalma os pesadelos que teimosamente insistem em visitar-me. Sinto-me oca, vazia, de tanto chorar...A gata, que ocupou o teu lugar na cama, acorda muitas vezes comigo a gritar o teu nome, acorda comigo empapada em suor. Coitada da bichana, mia baixinho junto do meu ouvido, numa tentativa de me reconfortar, o que até resulta, mas os pesadelos da tua ausência são uma visita constante.

Às vezes penso se estes pesadelos não serão a minha consciência a gritar de culpa. Cheguei a desejar a tua morte, sabias? Houve uma altura em que me fartei de correr para…

7

Era uma porta enferrujada. E ela entrou.

O autocarro partiu e a porta atrás dela se fechou.
Carregada de sacos onde cabiam os sonhos que o mundo apagou,
Só pensava em fugir de uma vida sacrificada, na rotina de vida em que tombou.
Saiu de casa com os seus sacos mal o dia madrugou,
Regressa a casa com os seus sacos já a noite se fechou,
Sempre com os seus sacos, mais um dia que acabou.
Carrega uma vida nas pernas que o mundo desengonçou,
As mãos grosseiras, a pele acabada, de tanta casa que limpou.
Quando chega a casa ainda vai cuidar da filha que gerou,
A sopa num ápice tragou,
Enquanto a filha o peito mamou,
Mas de tão cansada nem a própria casa arrumou.
Chega o marido, traste, bêbado, canalha, bate-lhe e ela nem notou,
Mais um dia que se passou.
Deitou-se dorida e sonhou,
Sonhou com uma porta enferrujada que sobre ela se fechou
Ali, com uma pedra com o seu nome ela se deparou
E ela finalmente descansou...