domingo, 19 de novembro de 2006

Deixa-me ir...

Ela tinha vivido os últimos meses no fio da agulha, dia após dia, dependente daquela substância milagrosa, qua afastava aquelas picadas alucinantes de dor e dava-lhe forças para aguentar mais um dia. Encontrava-se agora no limite das suas forças, depois da noite horrível que passou e que ela sabia ser a última. Ela olhou para o lado e os seus olhos encontraram-se com o do marido, junto à cabeceira daquela cama de hospital.

Ele também tinha passado por muito nestes últimos tempos, dando-lhe esperança e forças para combater aquele mal que se tinha apoderado dela, e que lhe corroia o corpo e os sentidos, acompanhando-a durante todo aquele caminho doloroso, gastando as precárias poupanças da família para lhe proporcionar mais um dia de vida.
Vida...Que vida? Se àquilo poderia-se chamar vida...Até já sentia o cheiro da sua carne em decomposição...Meu Deus, ao ponto que pode chegar a degradação humana...

Ele, que nem sequer acreditava na existência de Deus, e que agora pedia para ter mais 1 dia para poder abraçá-la...um sentimento egoísta, ele sabia-o. Sentiu as lágrimas a teimarem em aparecer, fazendo um esforço para contê-las. Ela não devia vê-lo chorar.

"Tens de me deixar ir. Tens de me libertar...", ouviu ela a sussurar por entre os gorgolelos de sangue que já lhe atacavam a garganta. Ele sabia que era verdade...deixou as lágrimas correrem livremente. "Descansa em paz minha querida, obrigada pela felicidade que me proporcionaste. Amo-te muito". E apesar do mar de dores em que ela se encontrava, ela sorriu e soltou um último suspiro.

Ele ficou a olhar aquele corpo mirrado, magro, miserável e quase irreconhecível. A batalha tinha sido ganha pelo cancro...

© MAC -

8 comentários:

  1. Arrepiante...mas sabes, continuo sem perceber, com a tecnologia que existe hoje, como demoram tanto tempo a descobrir uma cura para esta doença. Tenhamos esperança no futuro. Boa semana e obrigado pelos inteligentes comentários lá no Tiros.

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  2. Mais uma batalha ganha pelo monstro e descrita aqui com muita sensibilidade.

    Abraço.

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  3. No outro dia ouvia o Pessoal e Transmissivel na Tsf e falava-se da morte.O C.V.M entrevistava uma psicologa francesa ke já tinha assistido a dezenas de mortes e de toda a conversa duas coisas me marcaram +. foi de ela ter dito ke ninguém estava preparado para morrer (achamos ke verdadeiramente nao nos acontecer) e de ke devíamos viver todos os dias como se do último se tratasse.

    Gostei da tua história,relato da realidade.

    beijinhos

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  4. Gala, encaro a morte como um percurso natural, e também acho que o ego humano não é capaz de lidar com a sua ñ existência (como o Jean Baptiste, lembras-te?), mas a morte pelo cancro é uma das piores mortes que existem, e devemos contribuir na medida de cada um de nós. Eu já contribui na Corrida da Mulher (a favor do Cancro da Mama). E tu?

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  5. Mac, ja agora aproveito para te fazer um comentario, mas nao sobre o teu texto... essa musica de Nick Cave foi a primeira que ouvi dele, acreditas? :))) Abraço

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  6. eu contribuo todos os anos fazendo exames e ecografias a ver se não sou apanhada na eskina :( noc noc noc (na madeira ) ainda hoje uma colega de trabalho estava com enxaquecas ke a fazem vomitar e o meu conselho foi não te distraias ve a causa disso,faz um tac. e ela respondeu-me "ah tenho medo" é uma postura...
    A sensibilização boca-a-boca tb é importante senão + importante ke caminhadas onde se recorda kem foi o vip ke lá esteve e não a causa em si.

    beijos

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  7. Senhora das Águas, espero que tenhas gostado de Nick Cave. Vale a pena escutá-lo.

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  8. Hoje surpreendes-me com a amplitude deste post...
    Não o vou comentar..apenas por o sinto dentro de mim e reservo o comment para mim mesmo...
    Perdoa....
    Quero agradecer-te o comment que fizeste no meu ultimo post!
    Agradeço-to do fundo do coração!
    Só por ele valeu a pena escrever o post!
    Obrigada querida Mac!

    Paulo

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The summer is gone III