quarta-feira, 30 de julho de 2008

Ao fim da tarde

A chegada do fim do dia tinha um qualquer quê de mágico...sentava-me na cadeira de baloiço, velha e rangente, e ali ficava a admirar o lago que se estendia à minha frente. Diante de mim, um bule contendo chá, cujas aromatizadas colunas de vapor eu inalava, deliciando-me com o seu cheiro ...Ali ficava eu em longa conversa com o meu amor de sempre, discutindo o que nos vinha à cabeça, quer fosse as intermináveis viagens que havíamos feito pelo país, quer fosse política, com a minha posição de nefelibata a originar acessas discussões.
Poder-se-ia dizer que estávamos votados ao ostracismo naquela casa isolada, no meio de nenhures, mas preferíamos assim. Afinal onde noutro lugar poderíamos assistir a este movimento tão suave dos dias, onde poderíamos assistir a estes pores-do-sol tão intensos e tão vermelhos a lembrar as chamas do Inferno?
Ali ficávamos a conversar, até a luz do luar inundar o lago, até os seus raios tocarem notas de tom variável na superfície calma das águas, até os pirilampos sairem do seu casulo e voarem em rota quase vertical em direcção à luz....
Era um sítio mágico, aquele...


Texto publicado no 5ºJogo das Palavras, no Eremitério

4 comentários:

  1. Muitos deliciosos ou vaporosos ou misteriosos mas todos "das almas saídos"! Uma belíssima aposta, o livro das palavras e dos amigos!
    Quanto à rota andaluza... sinceramente não esperes muitas décadas (como eu fiz que só conhecia Sevilha de Expo 92). Uma semaninha: claro que há Granada e o Alhambra etc...mas Córdoba é tão suave de passear! E Maio/Junho já é uma boa época. Bjinhos

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  2. Os fins de tarde são sempre assim, aproxima-se uma vaporosa nuvem que se abate sobre conversas de poetas excêntricos, que elevam os problemas que inventaram para o país real que habitam.
    Numa cabana, talvez a exclusão, depois do cair da noite, onde o luar inunda as etéreas sombras em movimento vertical, que se sucedem ao incendiar dum fogo solar, que se apagou á pouco, que nos recorda o inferno, faz-nos ouvir o tanger variável dos cantares da bicharada que se aprestam para deixar os seus casulos.
    É assim que nasce o amor numa cabana ...

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  3. Um texto muito belo em que ligas perfeitamente todas as palavras nesta maravilhosa descrição de um fim de tarde. **

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  4. São sempre algo de misteriosos e deliciosos, os finais de tarde;)

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The summer is gone III